Porque, na era das máquinas inteligentes, será a sensibilidade humana que decidirá quem permanece relevante.
Vivemos um tempo curioso.
Nunca tivemos máquinas capazes de colocar tanto conhecimento, velocidade e capacidade de processamento a serviço das pessoas.
A Inteligência Artificial pesquisa, compara, organiza, identifica padrões, simula cenários, produz alternativas e executa tarefas numa velocidade que, há poucos anos, pareceria improvável – e estamos apenas no começo.
Talvez por isso uma parte importante das discussões sobre o futuro esteja concentrada naquilo que ela será capaz de fazer.
Quais profissões desaparecerão? Quais atividades serão automatizadas? Até onde as máquinas conseguirão avançar? O que ainda restará aos humanos?
São perguntas importantes, mas talvez estejamos olhando apenas para um dos lados da questão.
Porque, quanto mais poderosa a IA ficar, mais perigoso poderá se tornar o humano sem discernimento.
A afirmação pode parecer contraditória – não é.
A tecnologia não amplia apenas nossas possibilidades de acertar. Ela também aumenta nossa capacidade de executar, com enorme eficiência, decisões equivocadas.
Uma análise superficial pode ser produzida mais rapidamente.
Uma interpretação equivocada pode ganhar aparência de consistência.
Uma comunicação inadequada pode alcançar milhares de pessoas em segundos.
Uma decisão ruim pode ser automatizada, replicada e ganhar escala.
A IA não elimina necessariamente o erro humano.
Pode torná-lo mais eficiente.
E talvez esteja justamente aí uma das discussões mais importantes sobre o futuro do trabalho.
Durante muito tempo, conhecimento significou poder. Profissionais foram valorizados pelo que sabiam, pela quantidade de informações que conseguiam acumular e pela capacidade de encontrar respostas que outras pessoas não possuíam.
Agora temos máquinas capazes de disponibilizar conhecimento em quantidade e velocidade incomparavelmente maiores.
Isso não torna o conhecimento desnecessário. Mas muda seu lugar.
Se todos podem acessar respostas, talvez o diferencial comece a migrar da capacidade de encontrá-las para a capacidade de julgá-las.
A pergunta deixa de ser apenas: o que sabemos?
E passa a ser: o que somos capazes de fazer com aquilo que sabemos?
É nesse espaço que o discernimento ganha uma dimensão inteiramente nova.
Discernir não é simplesmente escolher entre alternativas.
É compreender contexto.
Perceber consequências.
Reconhecer limites.
Relacionar conhecimento com experiência.
Identificar aquilo que os dados mostram – e também desconfiar daquilo que eles podem estar deixando de mostrar.
É saber que uma resposta tecnicamente correta pode ser inadequada para determinada circunstância.
E, algumas vezes, é ter maturidade suficiente para decidir não fazer algo que seria perfeitamente possível fazer.
Talvez, por isso, a discussão sobre Inteligência Artificial e trabalho esteja sendo excessivamente simplificada quando colocamos máquinas e humanos em lados opostos.
Não acredito que o futuro pertença às máquinas.
Mas também não acredito que pertença simplesmente aos humanos.
Pertencerá à qualidade da combinação entre ambos.
Um profissional com repertório, capacidade crítica, sensibilidade, experiência e discernimento poderá utilizar a IA para ampliar extraordinariamente suas possibilidades.
Mas o mesmo instrumento, nas mãos de alguém que apenas aceita respostas, reproduz padrões e terceiriza seu julgamento, pode apenas ampliar sua superficialidade.
A máquina será a mesma.
O resultado, não.
Isso cria um desafio especialmente importante para as organizações.
Empresas estão investindo enormes recursos para incorporar a IA aos seus processos.
Automatizam atendimento, seleção de pessoas, análises, comunicação, planejamento e inúmeras atividades que antes dependiam integralmente da intervenção humana.
Faz sentido.
Mas incorporar tecnologias cada vez mais poderosas não resolve, por si só, a qualidade das decisões que serão tomadas a partir delas.
A IA pode indicar caminhos.
Alguém terá de compreender para onde eles levam.
Pode apresentar alternativas.
Alguém terá de avaliar suas consequências.
Pode reconhecer padrões.
Alguém terá de perceber quando a exceção é mais importante do que a regra.
Pode dizer como fazer.
Mas continuará existindo uma pergunta profundamente humana:
Devemos fazer?
É por isso que talvez o profissional do futuro não seja aquele que sabe mais do que a máquina.
Essa disputa, além de pouco inteligente, provavelmente já nasce perdida.
O profissional realmente valioso poderá ser aquele que sabe o que fazer com aquilo que a máquina sabe.
Isso muda também a responsabilidade das organizações.
Requalificar pessoas para a era da Inteligência Artificial não pode significar apenas ensiná-las a utilizar novas ferramentas.
Saber escrever comandos, operar plataformas ou automatizar processos será importante.
Mas isso é apenas parte da equação.
Precisaremos formar pessoas capazes de perguntar melhor, interpretar melhor, contextualizar melhor e decidir melhor.
Porque ferramentas cada vez mais poderosas exigirão usuários intelectualmente cada vez mais responsáveis.
Talvez este seja o paradoxo que estamos começando a enxergar.
Durante décadas, imaginamos que o avanço tecnológico reduziria nossa dependência das capacidades humanas.
Pode acontecer exatamente o contrário.
Quanto maior for a capacidade das máquinas, maior será a responsabilidade de quem lhes der direção.
Não porque o humano continuará fazendo aquilo que a máquina não consegue fazer.
Mas porque alguém precisará atribuir sentido àquilo que ela consegue.
Estamos investindo bilhões para tornar as máquinas cada vez mais inteligentes.
A pergunta é:
Quanto estamos investindo para tornar as pessoas que decidirão com elas mais capazes de discernir?
Talvez o grande desafio desta nova era, não seja tornar as máquinas cada vez mais inteligentes.
Seja tornar os humanos cada vez mais capazes de discernir.
Porque pensar é apenas o começo…
Reinaldo Martinazzo | Mentor Empresarial e Palestrante