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Reinaldo Martinazzo

O BURACO QUE APRENDEMOS A CAVAR MUITO BEM

Há ideias que encontramos em determinado momento da vida e que, por alguma razão, decidem permanecer conosco.

Ainda na década de 1970, quando cursava a faculdade, tive contato com os trabalhos de Edward de Bono sobre pensamento lateral. Entre tantos conceitos, uma figura de linguagem atravessaria comigo as décadas seguintes:

Nada conserta um buraco cavado no lugar errado.

A lógica parecia irrefutável.

Se você aprofunda, apenas se enterra mais. Se alarga, pode até tornar o buraco mais confortável, mas continua no lugar errado.

Durante muito tempo, essa metáfora me pareceu suficiente.

Hoje, já não parece. Não porque tenha perdido sua força, mas porque o mundo mudou desde então.

Mercados mudaram, ferramentas evoluíram, problemas ganharam novas dimensões, e nós também mudamos.

Talvez por isso, depois de tantas décadas, aquela antiga afirmação tenha começado a provocar em mim novas perguntas.

A primeira delas surgiu antes mesmo do buraco: o que estamos procurando?

ANTES DA PRIMEIRA PAZADA

Antes de escolher onde cavar, precisamos compreender o que buscamos.

Água?

Ouro?

Uma fundação?

Uma passagem?

Cada resposta muda o terreno, as ferramentas e até mesmo a necessidade de cavar.

Talvez o primeiro erro, portanto, não esteja na escolha do lugar.

Pode estar em começar a escavação antes de compreender suficientemente aquilo que procuramos.

Isso acontece também nas organizações.

Escolhemos ferramentas antes de compreender o problema.

Aperfeiçoamos processos cuja razão original talvez já tenha desaparecido.

Continuamos fazendo porque sabemos fazer. E, com o tempo, fazemos cada vez melhor, mais rápido e com mais precisão.

Mas existe algo que nenhuma eficiência consegue resolver:

A precisão da resposta não corrige a irrelevância da pergunta.

Antes da ferramenta existe pensamento. E talvez, antes da primeira pazada exista uma pergunta ainda mais importante: precisamos mesmo cavar?

O LUGAR ERRADO NEM SEMPRE COMEÇOU ERRADO

Existe outra razão pela qual a velha metáfora passou a me inquietar. Ela parece pressupor que alguém escolheu mal desde o princípio – nem sempre.

Às vezes encontramos exatamente o lugar certo.

Aprofundamos conhecimento.

Desenvolvemos competências.

Construímos relacionamentos.

Produzimos resultados.

E cavar mais fundo foi, durante muito tempo, a decisão correta.

O problema é que terrenos mudam.

Aquilo que ontem representava uma escolha brilhante pode, silenciosamente, perder aderência à realidade.

O lugar não estava errado. Mas o contexto mudou.

E enquanto o contexto mudava, nós também mudávamos.

Acumulamos experiência, repertório, conhecimento e novas maneiras de interpretar aquilo que vemos.

Por isso, talvez exista uma pergunta que deveria acompanhar toda escolha estratégica:

O terreno ainda é o mesmo?

O BURACO DE ESTIMAÇÃO

Essa pergunta seria mais fácil de responder se nossas escolhas fossem apenas racionais – não são.

Aquele buraco recebeu investimento.

Produziu resultados.

Construiu carreiras.

Desenvolveu competências.

Talvez tenha ajudado a formar parte da identidade da organização.

E, pouco a pouco, deixamos de defender apenas uma escolha para começar a defender nossa própria história.

O buraco vai ficando confortavelmente largo.

Aperfeiçoamos a escavação.

Criamos indicadores.

Premiamos os melhores escavadores.

E podemos nos tornar extraordinariamente eficientes em permanecer exatamente onde estamos.

É aí que surge um paradoxo incômodo:

Quanto mais competentes nos tornamos em determinada maneira de fazer alguma coisa, mais difícil pode se tornar questionar se ela ainda deveria ser feita daquela maneira.

O fracasso produz perguntas, da mesma forma que a crise obriga a reagir.

Mas o sucesso tranquiliza. E talvez seja por isso que alguns buracos não aprisionam pela profundidade – Aprisionam pelo conforto.

QUANDO A FERRAMENTA COMEÇA A PENSAR POR NÓS

Nunca tivemos instrumentos tão sofisticados para analisar, medir, prever e executar – isso é extraordinário.

Mas ferramentas cada vez mais precisas não garantem perguntas melhores.

Podemos medir perfeitamente a profundidade, calcular o custo da escavação, comparar produtividade e projetar resultados.

E continuar fazendo tudo isso dentro do mesmo buraco.

Talvez tenhamos uma escavadeira extraordinária.

Isso ainda não significa que precisamos cavar.

Porque existe uma pergunta que deveria sobreviver a qualquer ferramenta:

Quando a ferramenta desaparece, o que sobra do pensamento?

OLHAR PARA O LADO — E PARA CIMA

É aqui que aquela antiga leitura de Edward de Bono recupera sua força.

O pensamento vertical aprofunda.

E há momentos em que profundidade é exatamente o que precisamos.

O pensamento lateral desloca o olhar e cria alternativas.

E há momentos em que continuar aprofundando apenas nos distancia de outras possibilidades.

Mas nenhuma dessas formas de pensar é superior por definição.

Quem apenas aprofunda pode enxergar cada vez melhor uma parte cada vez menor da realidade.

Quem apenas procura alternativas talvez nunca permaneça tempo suficiente para construir profundidade.

Talvez seja preciso fazer outro movimento.

Levantar os olhos.

Enxergar o buraco.

O terreno.

Aquilo que mudou ao redor.

E aquilo que mudou em nós.

A visão holística amplia o campo.

Mas enxergar mais também não elimina a necessidade de escolher.

É nesse ponto que uma palavra ganha importância especial: discernimento.

Discernimento é reconhecer, diante do contexto, qual forma de pensar a realidade exige de nós.

Às vezes, aprofundar.

Às vezes, alargar.

Às vezes, mudar de direção.

Às vezes, parar.

E existem momentos em que precisamos sair e procurar outro terreno.

A PERGUNTA QUE FICOU

Durante décadas, aquela frase de Edward de Bono me acompanhou:

Nada conserta um buraco cavado no lugar errado.

Hoje eu não a abandonaria.

Mas já não consigo lê-la sem fazer outras perguntas:

O que buscamos?

Por que estamos cavando?

O terreno ainda é o mesmo?

Esta forma de pensar ainda serve?

Devemos aprofundar, alargar, mudar de direção ou sair?

Talvez a evolução do pensamento esteja justamente aí.

Não em substituir antigas respostas por novas certezas, mas em desenvolver a capacidade de formular perguntas melhores diante de realidades diferentes.

Porque existe algo mais perigoso do que cavar um buraco no lugar errado:

continuar cavando depois de esquecer o que estávamos procurando.

E talvez seja ainda mais difícil parar quando todos ao nosso redor admiram a profundidade que conseguimos alcançar.

Por isso, de tempos em tempos, talvez seja necessário fazer algo aparentemente simples:

parar de cavar e olhar para cima.

Porque quanto mais fundo estamos, menor pode se tornar o horizonte que conseguimos enxergar.

Porque pensar é apenas o começo…

Reinaldo Martinazzo | Mentor Empresarial e Palestrante

Nesta semana em que celebramos o Dia do Professor, quero propor uma homenagem diferente. Durante 22 anos, entrei em salas de aula acreditando que ensinava Marketing, Liderança e Gestão. Quinze anos depois de uma dessas aulas, um ex-aluno me encontrou por acaso e me devolveu algo que eu já nem lembrava ter ensinado – mas transformado pela experiência, pelo contexto e pelo discernimento. Foi quando compreendi que algumas aulas não terminam quando o professor deixa a sala. Elas seguem viagem, encontram a vida e, algumas vezes, retornam muitos anos depois. O que volta? É sobre isso que escrevo em “Quando o Conhecimento Volta”.
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Há quase cinquenta anos, uma ideia de Edward de Bono me acompanha: nada conserta um buraco cavado no lugar errado. Mas o que acontece quando o lugar estava certo e o terreno mudou? Ou quando nos tornamos tão competentes em cavar que deixamos de perguntar o que estávamos procurando? Mercados mudaram, ferramentas evoluíram e nossos desafios também. Talvez algumas das decisões mais difíceis não estejam em descobrir como cavar melhor, mas em reconhecer quando é hora de aprofundar, mudar de direção — ou simplesmente parar de cavar e olhar para cima.