O que um projeto chamado Gente Que Faz me ensinou sobre pessoas, liderança e significado.
Há experiências profissionais que ampliam competências.
Outras alteram, silenciosamente, a maneira como passamos a enxergar o mundo.
Ao longo de mais de quatro décadas de atuação, participei de projetos relevantes, acompanhei profundas transformações nas organizações e tive o privilégio de trabalhar ao lado de pessoas extraordinárias. Todos deixaram aprendizados importantes.
Mas houve um projeto que fez algo diferente.
Ele mudou meu modo de compreender a comunicação.
Na época, imaginei que estivesse dirigindo uma série de televisão, mas hoje sei que estava aprendendo uma das maiores lições da minha vida profissional.
Era o início da década de 1990 e o Brasil enfrentava uma de suas fases mais difíceis. A inflação corroía salários, a instabilidade econômica afetava empresas e famílias, enquanto o país parecia viver uma crise que ultrapassava os indicadores financeiros.
Havia uma sensação de desalento. Era como se a sociedade tivesse perdido, ao mesmo tempo, parte da esperança e da capacidade de reconhecer aquilo que possuía de melhor.
Foi nesse contexto que surgiu uma ideia surpreendentemente simples. Enquanto grande parte da publicidade procurava construir discursos sobre empresas, alguém fez uma pergunta diferente:
“E se, em vez de falarmos do banco, mostrássemos pessoas que estão ajudando a construir um país melhor?”
A pergunta partiu de Sergio Silbel Soares Reis, então Diretor de Marketing do Grupo Bamerindus.
Naquele momento, talvez não tivéssemos plena consciência da dimensão daquela proposta. Hoje percebo que ela não tratava apenas de comunicação. Tratava da escolha sobre quais exemplos mereciam ganhar visibilidade.
Aceitei o convite para dirigir aquele projeto sem imaginar que, muito mais do que uma campanha institucional, ele se tornaria um laboratório sobre comportamento humano.
Ele recebeu o nome de Gente Que Faz e sua lógica era quase desconcertante.
Não buscávamos celebridades.
Não procurávamos heróis.
Não escrevíamos histórias emocionantes.
Saíamos pelo Brasil procurando pessoas cuja própria vida já fosse uma boa história.
Professores.
Agricultores.
Pescadores.
Empresários.
Trabalhadores comuns.
Gente simples. Homens e mulheres anônimos que, independentemente de recursos, transformavam silenciosamente a realidade das comunidades onde viviam.
As gravações aconteciam nos próprios lugares onde aquelas histórias eram construídas.
Nada era encenado.
Nada precisava parecer verdadeiro.
Porque já era.
A narração de Gianfrancesco Guarnieri emprestava humanidade. Sua voz interpretada, não explicava aqueles personagens. Apenas nos conduzia até eles.
Na época, eu acreditava que produzíamos comunicação.
Hoje compreendo que fazíamos algo diferente: revelávamos pessoas que sempre estiveram ali, mas que poucos haviam aprendido a enxergar.
Conquistamos um espaço improvável – três minutos semanais em horário nobre da televisão brasileira, entre a novela das sete e o Jornal Nacional – abrimos um intervalo comercial inteiro.
Mas havia uma diferença essencial.
Não ocupávamos aquele espaço para vender.
Ocupávamos para contar histórias.
As pesquisas mostravam índices de credibilidade superiores a 95%.
Naturalmente, esses números nos alegravam.
Mas eles não eram o fato mais importante.
O que realmente nos surpreendia acontecia muito depois de a televisão ser desligada.
As pessoas comentavam:
“Conheço alguém assim.”
“Na minha cidade existe uma pessoa igual.”
“Meu pai faria isso.”
Foi ali que compreendi algo que continua orientando minha atuação até hoje: a comunicação mais poderosa não cria admiração – ela desperta reconhecimento.
Mas talvez exista uma palavra ainda melhor: ela cria referências. Os personagens do Gente Que Faz não eram admirados porque apareciam na televisão.
Apareciam na televisão porque já eram referências dentro da vida que levavam.
Nós apenas iluminávamos aquilo que já existia.
Anos depois, percebi que toda sociedade aprende observando os exemplos que decide tornar visíveis.
Aprendemos em casa.
Aprendemos na escola.
Aprendemos no trabalho.
Mas também aprendemos observando quem recebe atenção, quem ocupa espaço e quais comportamentos escolhemos valorizar.
Foi isso que tornou aquele projeto atemporal.
Ele nunca pretendeu ensinar virtudes.
Limitava-se a revelar pessoas que as praticavam naturalmente.
E talvez não exista pedagogia mais poderosa do que essa.
Uma das experiências mais marcantes aconteceu durante um grande evento institucional.
Após a exibição de alguns episódios, três personagens da série foram convidados ao palco.
Não eram empresários famosos.
Não eram autoridades.
Ainda assim, todo o auditório levantou-se para aplaudi-los.
Naquele instante compreendi que ninguém estava homenageando apenas aquelas pessoas – o público aplaudia aquilo que elas representavam.
Um deles, homem simples, negro, criado em um orfanato, solicitou o microfone. Não falou sobre sua história, mas olhando firmemente nos olhos do governador de seu Estado, pediu que ajudasse a reconstruir o orfanato onde crescera, que fora destruído anos antes por um incêndio e esquecido pela burocracia.
Ele não dominava técnicas de comunicação.
Não havia recebido treinamento.
Não possuía um discurso cuidadosamente preparado.
Mas tinha aquilo que nenhuma escola consegue ensinar: verdade.
Naquele momento compreendi que comunicação não nasce da eloquência.
Nasce da autenticidade.
Dediquei sete anos ao Gente Que Faz.
Hoje percebo que aqueles anos moldaram muito mais do que minha maneira de comunicar.
Influenciaram a forma como passei a compreender; liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano.
Durante muito tempo pensei que comunicar fosse transmitir mensagens. Hoje acredito que comunicar é revelar significado.
Organizações fortes não são apenas aquelas que desenvolvem bons produtos ou excelentes serviços. São aquelas que ajudam pessoas a reconhecer valor.
Valor no trabalho.
Valor nas equipes.
Valor na integridade.
Valor em exemplos que normalmente passam despercebidos.
Talvez seja por isso que, anos mais tarde, minhas reflexões passaram a girar em torno de temas como propósito, cultura, longevidade profissional e capital de significado.
No fundo, todos nascem da mesma pergunta:
Que tipo de referência estamos ajudando a construir?
Sempre que volto à memória daquele projeto, retorno inevitavelmente ao seu início.
À coragem de um executivo que percebeu, antes de muitos de nós, que uma organização também pode servir à sociedade iluminando aquilo que ela possui de melhor.
Sergio Silbel Soares Reis já não está entre nós. Mas algumas pessoas permanecem presentes pelas ideias que deixam. Esta é uma delas.
Ao recordar sua visão, faço questão de estender esse reconhecimento às centenas de profissionais que participaram daquela construção – pesquisadores, produtores, equipes de criação, atendimento, cinegrafistas, editores e tantos outros que compreenderam que estavam diante de algo maior do que uma campanha institucional de comunicação. Porque, no fim, o Gente Que Faz também foi feito por gente que fez.
Vivemos uma época em que nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Temos inteligência artificial, algoritmos, plataformas digitais e recursos que sequer imaginávamos há três décadas.
Ainda assim, talvez nunca tenha sido tão importante refletir sobre aquilo que escolhemos colocar sob a luz.
Líderes fazem isso todos os dias.
Organizações também.
Toda escolha comunica.
Toda escolha educa.
Toda escolha contribui para definir quais comportamentos merecem permanecer vivos –essa foi a maior lição que Gente Que Faz me deixou.
Na época, pensei que estivesse aprendendo sobre comunicação, mas hoje compreendo que estava aprendendo algo muito maior, porque toda sociedade, assim como as organizações, precisa de referências.
Líderes educam muito menos pelos discursos que fazem do que pelas pessoas, atitudes e valores que decidem tornar visíveis. Porque aquilo que iluminamos cresce, enquanto que aquilo que ignoramos desaparece.
Hoje tenho plena convicção de que esse continuará sendo o papel mais nobre da comunicação: não fabricar heróis, mas sim, ajudar a sociedade a enxergar o melhor de si mesma.
Porque pensar é apenas o começo…
Reinaldo Martinazzo | Mentor Empresarial e Palestrante