Porque a criatividade talvez dependa menos de talento e mais de discernimento
Durante a infância e parte da juventude, acompanhei de perto a rotina dos agricultores do interior.
Meu pai era comerciante. Vendia insumos agrícolas, adquiria a produção das lavouras e passava boa parte do tempo conversando com quem vivia da terra. Sempre que podia, eu o acompanhava. Sem perceber, estava recebendo uma das lições mais importantes da minha vida.
Aprendi cedo que, no campo, quase nada acontece quando queremos.
Existe o tempo de preparar a terra.
O tempo de escolher a semente.
O tempo de plantar.
O tempo de cuidar.
O tempo de esperar.
E, finalmente, o tempo de colher.
Mas aprendi também outra coisa.
Mesmo quando tudo é feito corretamente, a natureza continua soberana.
A chuva pode atrasar.
Pode chegar antes.
Pode vir em excesso.
Uma estiagem inesperada, uma geada ou um vento fora de época podem alterar completamente aquilo que parecia cuidadosamente planejado.
Nunca ouvi um agricultor dizer que controlava o tempo. Os bons agricultores falavam de outra coisa: falavam em aprender a ler o tempo.
Naquela época eu não tinha consciência disso, mas hoje percebo que aquela talvez tenha sido minha primeira lição sobre discernimento.
Porque o discernimento não é apenas decidir. É reconhecer o momento certo.
Décadas depois, ao revisitar a obra de Domenico De Masi, essa lembrança voltou de maneira inesperada.
Confesso que nunca me senti confortável com a forma como o conceito de Ócio Criativo passou a ocupar o imaginário coletivo. Em muitos ambientes, ele acabou reduzido a uma defesa da inatividade, da diminuição do trabalho ou de uma romantização do descanso. Sempre me pareceu uma leitura superficial para um pensador muito mais profundo.
Quanto mais releio De Masi, menos acredito que ele estivesse falando sobre ócio. Tenho a impressão de que falava sobre as condições necessárias para que o pensamento se torne fértil.
E talvez exista uma diferença enorme entre essas duas interpretações.
Vivemos numa época fascinada pela aceleração.
Aceleramos a comunicação.
Aceleramos a produção.
Aceleramos a aprendizagem.
Aceleramos as respostas.
Aceleramos até o descanso, transformando-o em mais um compromisso da agenda.
Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: será que o pensamento também pode ser acelerado?
Foi justamente essa pergunta que me fez voltar às lembranças da infância.
Porque a natureza sempre soube que acelerar não significa amadurecer.
Somos nós que, fascinados pela velocidade, insistimos em esquecer.
A terra nunca floresceu por ansiedade.
As estações nunca anteciparam seus ciclos para atender às expectativas humanas.
A natureza simplesmente obedece às leis que sustentam a vida.
Talvez por isso ela continue sendo uma professora tão silenciosa quanto extraordinária.
O agricultor não criou essas leis. Aprendeu a observá-las.
Aprendeu que plantar antes da hora não produz uma colheita antecipada.
Produz uma colheita comprometida.
Aprendeu que esperar não é passividade. É discernimento.
Talvez seja exatamente nesse ponto que Domenico De Masi volte a conversar conosco. Não para defender menos trabalho e tampouco para exaltar o descanso.
Mas para recordar que a criatividade também possui uma ecologia própria.
Ela não nasce da aceleração contínua.
Nasce quando existem condições para que o pensamento amadureça.
Assim como acontece com a terra.
Os gregos distinguiam duas maneiras de compreender o tempo.
Cronos representava o tempo que medimos.
Kairós representava o tempo que reconhecemos.
O primeiro pertence ao relógio.
O segundo pertence ao discernimento.
Porque não basta saber que o tempo passou.
É preciso perceber quando alguma coisa está pronta para acontecer.
Curiosamente, a agricultura compreendeu essa diferença muito antes de ela receber um nome filosófico.
O agricultor experiente não planta porque o calendário determina. Ele planta porque aprendeu a ler o contexto.
Observa o solo.
A umidade.
O clima.
Os sinais da natureza.
Discernir, para ele, nunca foi um exercício intelectual. Sempre foi uma condição de sobrevivência.
Quando penso nas organizações que acompanho como Mentor Empresarial, percebo que boa parte dos problemas não nasce da falta de inteligência.
Nem da falta de tecnologia.
Nem da falta de informação.
Nasce da dificuldade de interpretar o momento.
Muitas decisões corretas fracassam porque são tomadas cedo demais.
Outras chegam quando a oportunidade já passou.
Há organizações que insistem em mudar quando ainda não compreenderam o problema.
Outras permanecem imóveis quando o contexto já exige transformação.
Conhecimento ajuda.
Experiência ajuda.
Mas nenhuma dessas capacidades substitui aquilo que considero um dos ativos mais importantes do nosso tempo: o discernimento.
Não apenas para compreender a realidade.
Mas para compreender o tempo da realidade.
Foi justamente essa percepção que me fez reler Domenico De Masi.
Talvez sua maior contribuição nunca tenha sido defender o ócio.
Talvez tenha sido lembrar que a criatividade possui ritmos próprios.
Que o pensamento não floresce sob comando.
Que algumas ideias precisam de silêncio.
Outras precisam de diálogo.
E quase todas precisam de tempo.
Não do tempo vazio. Mas do tempo fértil.
Hoje penso que a criatividade não nasce apenas do talento. Ela nasce do discernimento.
Do discernimento para compreender o contexto.
Do discernimento para reconhecer os ciclos.
Do discernimento para saber quando insistir.
Quando esperar.
Quando mudar.
Quando plantar.
E quando colher.
Porque criar não é acelerar.
Criar é reconhecer o momento em que a vida está pronta para florescer.
Talvez seja exatamente isso que Domenico De Masi ainda tenha a nos ensinar.
A criatividade não floresce quando tentamos dominar o tempo.
Ela floresce quando aprendemos a discernir os seus ciclos.
Se esta reflexão continua despertando perguntas que fazem sentido na realidade da sua organização, podemos continuar esta conversa transformando-a em palestra, workshop ou mentoria adaptada ao contexto da tua empresa.
Porque pensar é apenas o começo…
Reinaldo Martinazzo | Mentor Empresarial e Palestrante