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Reinaldo Martinazzo

Atreva-se a mudar

O difícil não é enxergar. É decidir.

Nota de contexto:
Esta reflexão nasceu de conversas recorrentes em processos de Mentoria Empresarial. Momentos em que os sinais já estavam presentes, o diagnóstico parecia claro e a necessidade de mudança era praticamente consensual. Ainda assim, a decisão permanecia suspensa no tempo. Não por falta de informação ou de competência, mas por algo muito mais comum: a dificuldade de transformar compreensão em ação
.

Ao longo da vida profissional, aprendemos a valorizar o conhecimento. Estudamos, acumulamos experiências, observamos o comportamento dos mercados, das organizações e das pessoas. Com o tempo, desenvolvemos a capacidade de perceber padrões, identificar riscos e reconhecer oportunidades antes que se tornem evidentes para todos.

Talvez por isso exista uma crença silenciosa de que as grandes transformações acontecem quando descobrimos algo novo.

Uma nova estratégia.

Uma nova tecnologia.

Uma nova metodologia.

Uma nova forma de enxergar o mundo.

Mas a experiência tem me levado a uma conclusão diferente.

Em muitos casos, a mudança não começa quando aprendemos algo novo. Ela começa quando deixamos de ignorar aquilo que já sabemos.

Existem momentos em que os sinais são suficientemente claros. O profissional percebe que determinadas competências precisarão ser desenvolvidas. O líder compreende que a estrutura que trouxe a organização até aqui dificilmente será a mesma que a conduzirá para o próximo ciclo. A empresa identifica movimentos do mercado que exigem adaptação. A realidade, de uma forma ou de outra, se apresenta.

O curioso é que enxergar raramente é o maior desafio.

O verdadeiro desafio surge depois.

Porque existe uma diferença importante entre compreender uma realidade e agir sobre ela. A compreensão amplia a consciência. A decisão, porém, exige assumir responsabilidades.

E responsabilidade tem peso.

Toda escolha relevante carrega consigo algum grau de renúncia. Ao optar por um caminho, inevitavelmente deixamos outros para trás. Ao iniciar um novo ciclo, somos convidados a abandonar referências que até então nos ofereciam segurança. Nem sempre porque estavam erradas, mas porque já não são suficientes.

Talvez seja por isso que tantas pessoas permaneçam durante anos diante de situações que já compreenderam não fazer mais sentido.

Não porque desconheçam os fatos.

Não porque lhes falte inteligência.

Mas porque compreender uma verdade costuma ser mais confortável do que assumir as consequências que ela impõe.

A partir de determinado momento, o problema deixa de ser falta de informação. O problema passa a ser o intervalo crescente entre perceber e agir.

E esse intervalo raramente é neutro.

Enquanto adiamos decisões importantes, o tempo continua avançando. Mercados evoluem. Relações se transformam. Oportunidades surgem e desaparecem. Pequenos ajustes que poderiam ter sido feitos de maneira gradual acabam exigindo mudanças abruptas e dolorosas.

Costumo dizer que o tempo cobra juros sobre decisões adiadas.

Não se trata de uma punição. Trata-se apenas da forma como a realidade funciona.

Uma conversa que deveria ter acontecido meses atrás costuma ser mais difícil quando finalmente acontece. Uma competência negligenciada durante anos exige esforço muito maior para ser desenvolvida. Uma mudança inevitável torna-se mais traumática quando insistimos em adiá-la.

Os líderes mais adaptáveis que conheci não foram aqueles que nunca tiveram dúvidas. Foram aqueles que aprenderam a não permanecer tempo demais diante delas. Compreenderam que existe um momento em que continuar analisando deixa de ser prudência e passa a ser adiamento. Um momento em que buscar mais informações deixa de representar preparo e passa a funcionar como justificativa para evitar uma escolha.

A longevidade profissional raramente é ameaçada pela falta de competência. Com frequência, ela é comprometida pela incapacidade de transformar percepção em movimento.

E talvez resida aí uma das maiores armadilhas da experiência.

Quanto mais conhecimento acumulamos, maior tende a ser nossa capacidade de compreender a complexidade das situações. Mas compreender a complexidade não nos exime da necessidade de decidir. Pelo contrário. Torna essa responsabilidade ainda mais evidente.

Talvez o maior risco da mudança não seja fracassar. Mas sim, permanecer tempo demais diante de uma verdade que já compreendemos.

Existe um momento em que os sinais estão presentes. Os fatos se acumulam. A realidade se manifesta de forma inequívoca. E, ainda assim, seguimos esperando por uma confirmação adicional que, no fundo, sabemos não ser necessária.

Por isso, “atrever-se a mudar” não me parece um ato de coragem. Coragem é a palavra que normalmente utilizamos quando observamos a decisão de fora.

Para quem a vive, a mudança costuma ser algo diferente. Ela é, antes de tudo, um ato de honestidade.

A honestidade de reconhecer que o futuro raramente será definido pelo que sabemos.

Ele será definido, sobretudo, pelo que escolhemos fazer depois que finalmente entendemos.

Se essa reflexão fez sentido, será um prazer continuar essa conversa.
Porque muitas vezes, é no olhar externo – estruturado, experiente e isento – que as organizações conseguem perceber aquilo que já está acontecendo, mas ainda não foi nomeado.

Reinaldo Martinazzo
Mentor Empresarial & Palestrante
Provoco líderes a pensar antes que o mercado os obrigue.

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