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Reinaldo Martinazzo

Ops… Ainda Esquecemos o Humano

Em setembro do ano passado, publiquei um artigo com o título “Ops… Esquecemos o Humano”.
Naquele momento, a provocação parecia suficiente.

Hoje, ela se mostra necessária. Mais do que isso: urgente.

De lá para cá, a tecnologia avançou.
As ferramentas evoluíram.
A inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a ser prática.

E, ainda assim — ou talvez por isso — a sensação é cada vez mais evidente: estamos nos tornando mais eficientes… e menos humanos.

O Paradoxo do Avanço

Recentemente, tive contato com as ideias apresentadas em Marketing 7.0.

Kotler avança na defesa da construção de um marketing mais integrado, inteligente e imersivo – um modelo que busca articular tecnologia, dados e experiências em uma jornada cada vez mais fluida entre o físico e o digital.

Não se trata apenas de evolução tecnológica.

Trata-se de uma tentativa de reorganizar o papel do marketing em um ambiente onde a interação deixa de ser episódica e passa a ser contínua, contextual e, muitas vezes, invisível.

Mas há um ponto central – e, ao mesmo tempo, sutil – nessa proposta:

o modelo pressupõe a presença do humano como elemento estruturante… e não como variável substituível.

E é justamente aqui que emerge um descompasso preocupante.

Enquanto o conceito avança na direção da integração entre tecnologia e experiência humana, o mercado parece ter feito uma leitura apressada – e, em certa medida, conveniente.

Adotamos a tecnologia. Mas negligenciamos o fundamento.

Eficiência Não É Relação

Vivemos uma era em que:

  • respostas são automatizadas;
  • jornadas são mapeadas; e
  • interações são escaladas.

Tudo funciona. Mas algo não conecta.

Empresas operam com precisão técnica… e falham em profundidade relacional.

E aqui reside um dos maiores equívocos do marketing contemporâneo: acreditar que eficiência gera vínculo.

Não gera.

Eficiência gera fluidez.
Vínculo exige presença.

A Ilusão da Presença

Nunca estivemos tão presentes. E, ao mesmo tempo, tão distantes.

As marcas publicam.
Respondem.
Interagem.

Mas muitas vezes:

  • não escutam;
  • não percebem; e
  • não compreendem.

Criamos uma geração de empresas que falam muito… e se conectam pouco.

Quando o Marketing Ultrapassa a Venda

Ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de acompanhar – e participar – de decisões que iam além da lógica tradicional do marketing.

Uma delas foi a campanha institucional do Banco Bamerindus com a mensagem:

“Unindo o Brasil num Grande Abraço”.

Não se tratava de promover produtos.
Não havia oferta, taxa ou benefício explícito.

O que se buscava era algo mais sutil – e, ao mesmo tempo, mais poderoso: construir presença simbólica.

Em um país marcado por diferenças regionais, a campanha operava em uma camada superior à transação. Falava de pertencimento, de identidade, de conexão.

Não havia call to action.

Havia intenção.

E talvez seja justamente isso que diferencia aquele momento do atual: não se buscava resposta imediata. Buscava-se significado duradouro.

O Risco da Terceirização do Vínculo

Talvez o maior risco deste momento seja silencioso.

Estamos, pouco a pouco, terceirizando para algoritmos aquilo que deveria ser uma responsabilidade humana:

  • a escuta;
  • o cuidado; e
  • a construção de confiança.

E isso tem um custo.

Um custo que não aparece nos relatórios.

Mas aparece no comportamento do cliente:

  • menor lealdade;
  • menor engajamento real; e
  • menor disposição para defender a marca.

O Que Está em Jogo

Não estamos discutindo ferramentas.

Estamos discutindo relevância.

Porque sabemos que uma marca pode ser altamente eficiente…
e completamente substituível.

E quando isso acontece, o mercado deixa de escolher – passa a apenas comparar.

Uma Nova (Ou Antiga) Agenda

Este artigo não encerra o tema.

Ele inaugura uma reflexão que pretendo aprofundar nas próximas edições:

  • A ilusão da eficiência como substituta da relação
  • O algoritmo como amplificador – não como construtor de confiança
  • O papel do humano na formação de vínculos duradouros
  • E o conceito que venho trabalhando ao longo do tempo: o Cliente Evangelizador

Porque, no fim, talvez a pergunta mais relevante não seja: como alcançar mais pessoas?

Mas sim: como ser lembrado, respeitado… e defendido por elas?

Se essa reflexão fez sentido para você, talvez este seja o momento de revisar não apenas as ferramentas que você utiliza – mas a lógica que sustenta suas decisões.

Porque, no fim, não é a tecnologia que define o valor de uma marca.

São as relações que ela é capaz de construir, sustentar… e honrar ao longo do tempo.

E é sobre isso que continuaremos falando.

Nesta semana em que celebramos o Dia do Professor, quero propor uma homenagem diferente. Durante 22 anos, entrei em salas de aula acreditando que ensinava Marketing, Liderança e Gestão. Quinze anos depois de uma dessas aulas, um ex-aluno me encontrou por acaso e me devolveu algo que eu já nem lembrava ter ensinado – mas transformado pela experiência, pelo contexto e pelo discernimento. Foi quando compreendi que algumas aulas não terminam quando o professor deixa a sala. Elas seguem viagem, encontram a vida e, algumas vezes, retornam muitos anos depois. O que volta? É sobre isso que escrevo em “Quando o Conhecimento Volta”.
Estamos vivendo uma era em que muitos acreditam que o futuro pertence às máquinas. Mas, ao observar mais profundamente o impacto da automação no trabalho, no consumo e na estratégia, fica claro que a tecnologia só cria vantagem quando é guiada por pessoas capazes de interpretar, sentir e decidir. Neste artigo, exploro porque a sensibilidade humana será o diferencial que definirá quem continuará relevante nos próximos anos.
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