O dia em que um ex-aluno me fez compreender o verdadeiro significado de ensinar
Um belo dia, fui tomar sorvete com as minhas netas e a atendente que normalmente encontrávamos no caixa não estava. Em seu lugar, um rapaz que me cumprimentou com uma simpatia que parecia carregar alguma familiaridade.
Algum tempo depois, aproximou-se da nossa mesa e fez a inevitável pergunta:
– Professor, lembra de mim?
Olhei novamente para ele.
– Para ser bem franco contigo, não.
Ele riu.
Havia sido meu aluno cerca de quinze anos antes. Hoje era proprietário de duas lojas e queria me agradecer por algo que eu havia dito. Confesso que não me lembrava, mas em uma aula, eu tinha usado o hospital como exemplo de uma das organizações mais complexas que existem.
Na oportunidade comentei que dentro de um hospital convivem várias empresas ao mesmo tempo: uma farmácia, uma lavanderia, um restaurante, um hotel, uma operação logística, manutenção, recursos humanos…
Com um agravante: nenhuma delas é exatamente igual às suas equivalentes fora dali.
A farmácia de um hospital não é uma farmácia comum.
A lavanderia não é uma simples lavanderia.
A alimentação, a hotelaria e a logística também precisam responder a exigências muito particulares.
E, apesar de toda essa complexidade e de todo o esforço para que o atendimento seja excelente, eu encerrava o exemplo lembrando uma pequena ironia: há uma frase absolutamente natural para quase qualquer empresa, que pode soar como mau agouro dentro de um hospital:
– Volte sempre!
Ele se lembrava disso quinze anos depois.
Mas não era a lembrança que o deixava satisfeito. Era o que havia feito com ela.
Sua sorveteria ficava próxima a uma clínica odontológica e com frequência apareciam clientes que, por recomendação do dentista, precisavam ingerir alimentos gelados depois de algum procedimento.
Ele percebeu que não bastava simplesmente vender-lhes um sorvete e então tentou entender a situação para recomendar o produto mais adequado:
– Hoje eu sugiro este. A massa dissolve melhor, é feito com polpa e não deixa resíduos que possam atrapalhar seu tratamento.
E então completava:
– Mas temos outros sabores ótimos. Quando estiver liberado para se alimentar normalmente, volte para experimentá-los.
Enquanto ele contava, percebi que algo muito interessante havia acontecido. Ele não havia simplesmente guardado um exemplo dado em sala de aula.
Ele havia compreendido o ‘princípio’.
Anos depois, diante de outro negócio, outro tipo de cliente e uma situação que jamais poderíamos ter previsto naquela aula, conseguiu interpretar o contexto e adaptar o que aprendera.
Aquilo já não era apenas conhecimento.
Havia passado pela experiência.
Havia encontrado a realidade.
Havia se transformado em discernimento.
E foi naquele momento, sentado numa sorveteria com minhas netas, que me ocorreu a imagem de um bumerangue – porque talvez ensinar tenha um pouco disso.
O professor lança alguma coisa sem saber exatamente onde ela irá chegar.
Uma ideia.
Uma pergunta.
Uma metáfora.
Uma maneira diferente de olhar para um problema.
Depois, o aluno vai embora.
A vida acontece.
Na maioria das vezes, o professor jamais saberá o destino daquilo que lançou.
Mas, de vez em quando, a vida oferece o privilégio de ver alguma coisa voltar.
E há uma particularidade extraordinária nesse retorno: O conhecimento que volta nunca é exatamente o mesmo que partiu. Entre a partida e o retorno existe uma vida.
Foi exatamente o que aquele ex-aluno estava me devolvendo.
Eu havia lançado um exemplo. Ele me devolvia uma interpretação.
Eu havia falado sobre contexto. Ele me devolvia discernimento.
E, sem perceber, acabava me oferecendo uma aula sobre o próprio significado de ensinar.
Durante 22 anos, entrei em salas de aula acreditando que ensinava Marketing, Liderança e Gestão. Hoje percebo que, talvez, sempre tenha ensinado pessoas a pensar sobre si mesmas por meio dessas disciplinas.
Essa percepção também me ajudou a compreender melhor o trabalho que desenvolvo atualmente como Mentor Empresarial.
Mudaram os ambientes.
Mudaram as perguntas.
Mudaram as pessoas.
Mas permaneceu algo essencial: a convicção de que ensinar não significa entregar respostas prontas.
Muitas vezes significa oferecer uma pergunta, uma referência ou uma maneira de pensar que continuará trabalhando dentro de alguém muito depois que a conversa terminou.
Talvez por isso ensinar seja maior do que a própria sala de aula.
O professor faz disso sua profissão. Mas há mentores, líderes e profissionais que também descobrem, em algum momento da trajetória, a responsabilidade de transformar aquilo que aprenderam em ponto de partida para outras pessoas.
Não sabemos o que elas farão com aquilo que oferecemos – e talvez nem devamos saber.
Porque existe algo de profundamente generoso no ato de ensinar: aceitar que parte daquilo que compartilhamos seguirá sua trajetória sem nós.
Algumas coisas serão esquecidas, outras perderão o sentido, mas algumas encontrarão terreno fértil, serão confrontadas pela experiência e ganharão significados que nós mesmos jamais imaginamos.
Talvez seja justamente aí que comece o verdadeiro legado de um professor.
Não quando o aluno consegue repetir aquilo que ouviu. Mas quando já não precisa repetir.
Porque aprendeu a pensar a partir daquilo que recebeu.
Naquela tarde, alguma coisa voltou comigo.
Depois de tantos anos ensinando por meio de histórias, perguntas e metáforas, um ex-aluno, numa sorveteria, me fez compreender uma das dimensões mais bonitas do ato de ensinar: algumas aulas continuam acontecendo muito depois que o professor deixa a sala.
Nesta semana comemoramos o Dia do Professor, minha homenagem é para todos aqueles que um dia lançaram alguma coisa que continuou viajando dentro de outra pessoa.
Talvez você não se lembre de todas as aulas que teve. Talvez nem consiga mais identificar de onde vieram algumas das ideias que hoje fazem parte da sua maneira de pensar.
Mas vale a pergunta:
Qual professor ainda continua ‘conversando’ com você?
Porque algumas aulas terminam quando toca o sinal.
Outras levam uma vida inteira para terminar.
Reinaldo Martinazzo | Mentor Empresarial e Palestrante
Provoco líderes a pensar antes que o mercado os obrigue.