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Reinaldo Martinazzo

Estratégias Fora de Controle: Quando o Erro e o Acaso Moldam o Marketing.

“A história é feita por gênios, dizem. Mas, na verdade, é feita por decisões mal tomadas, acasos imprevisíveis — e por uma boa dose de estupidez.”
(inspirado em Fora de Controle, de Erik Derschmied)

Nos bastidores das campanhas icônicas, dos slogans memoráveis e dos cases consagrados de marketing, é quase certo que nem tudo foi pensado meticulosamente. Muitos dos maiores acertos, certamente não nasceram da genialidade absoluta, mas do improviso, da insistência teimosa em más ideias que acabaram funcionando, e – por que não? – da estupidez organizacional disfarçada de estratégia.

No mundo contemporâneo, onde o marketing lida com incertezas cada vez mais complexas, ignorar o papel do erro e do acaso é um erro em si.

A Estupidez Estratégica Existe – E Anda de Gravata

É comum encontrarmos decisões de marketing que desafiam a lógica: lançamentos que ignoram pesquisas, rebrands sem conexão com o público, investimentos em canais irrelevantes apenas porque “a concorrência está lá”.
Muitas dessas decisões partem de lideranças blindadas, vaidosas, que confundem cargo com razão — e transformam o marketing em campo de testes perigosos.

Pensemos na Kodak, que inventou a câmera digital, mas a engavetou por medo de canibalizar sua própria venda de filmes. Ou na Olivetti, que tinha tudo para dominar a era dos computadores pessoais, mas preferiu seguir sendo a “Ferrari das máquinas de escrever”.

Esses não foram erros técnicos. Foram atos de estupidez estratégica – nascidos da miopia, do orgulho e da crença de que o mundo obedeceria ao planejamento feito em sala de reunião.

O Acaso Também Tem Seu Papel – E Não Pede Licença

Há também os acertos involuntários. Produtos lançados para um fim que ganharam outro significado pelo uso do público – ou que simplesmente só deram certo depois de uma longa sequência de fracassos:

  • O Post-it, criado de um erro de adesivo fraco;
  • O Viagra, concebido como remédio cardíaco;
  • O Facebook, que cresceu sem modelo de negócio claro, guiado pelo uso espontâneo de universitários; e
  • WD-40: A Vitória na 40ª Tentativa
    A sigla que batiza o famoso desengripante vem de Water Displacement – 40th attempt. Foram 39 tentativas fracassadas até que a fórmula ideal fosse alcançada por Norman Larsen e sua equipe, em 1953. Eles não estavam tentando criar um produto revolucionário – apenas algo funcional. O sucesso veio depois, impulsionado por usos não previstos.
    Hoje, WD-40 está presente em mais de 180 países e virou símbolo de persistência e versatilidade – uma prova de que nem toda inovação é intencional, mas pode ser extraordinariamente bem aproveitada.

No marketing, isso é ainda mais evidente: campanhas que viralizam sem pretensão, marcas que crescem por memes, influenciadores que se tornam símbolos de produtos que nem consumiam até ontem.

Em tempos de algoritmos imprevisíveis e consumidores autônomos, o acaso se tornou um agente ativo da estratégia.

Marketing em Tempos BANI: Planejar é Aceitar o Descontrole

Vivemos na era BANI – Brittle, Anxious, Non-linear, Incomprehensible –  e isso exige uma nova mentalidade de marketing. Planejamentos longos, campanhas engessadas e rigidez tática são convites ao fracasso.

Mais do que prever, é preciso preparar-se para o que não se pode controlar.

Isso significa:

  • Criar estratégias modulares, adaptáveis, com margens de erro e espaço para iteração (repetição);
  • Desenvolver repertório e sensibilidade para reagir com rapidez; e
  • Abandonar a ideia de perfeição e abraçar o conceito de versão viável que evolui com o mercado.

A Gênese da Inovação: Erro, Tentativa, Ajuste

O marketing criativo nasce onde o controle falha. Grandes ideias surgem de perguntas mal resolvidas, de problemas sem manual, de insights que não cabem no PowerPoint. A genialidade, muitas vezes, é a soma do erro com a ousadia de insistir e aprender.

Organizações que compreendem isso:

  • Tratam o erro como aprendizado, não como fracasso;
  • Premiam o improviso responsável; e
  • Valorizam equipes com autonomia para testar e corrigir.

Nem Tudo Que Dá Certo é Genial. Mas Pode Ser Incrivelmente Estratégico

O marketing contemporâneo exige uma nova humildade: reconhecer que nem tudo está sob controle. Que às vezes, o sucesso nasce do erro bem interpretado, da burrice alheia aproveitada com inteligência, ou do acaso que favorece os atentos.

Planeje, sim. Mas com abertura ao imprevisível.
Erre, sim. Mas com coragem para aprender.
E acima de tudo, esteja sempre atento:
Porque enquanto você se apega à lógica, seu cliente pode estar rindo de um meme – que virou marca.

Reinaldo Martinazzo

Em um mundo que acelera processos e automatiza decisões, o verdadeiro desafio da liderança continua sendo profundamente humano: saber o que deve evoluir — e, principalmente, o que precisa ser deixado para trás. Porque, no fim, não são os paradigmas que nos limitam… somos nós, quando insistimos em consertar aquilo que já cumpriu o seu papel.
A maior ameaça às decisões estratégicas não é a falta de conhecimento, mas o excesso de certeza. A arrogância cognitiva nasce quando a experiência deixa de ampliar a percepção e passa a filtrar a realidade. Líderes competentes erram não por ignorância, mas por se apoiarem demais no que já sabem — e de menos no que o contexto ainda tenta dizer. Em tempos de ruptura, saber que não sabe deixou de ser fraqueza. Tornou-se inteligência estratégica.
Todo líder corre um risco silencioso: apaixonar-se pelo próprio passado. O que ontem foi mérito, hoje pode ser limite. O que foi experiência, pode virar resistência. Sem uma voz que provoque, que confronte e que amplie a visão, a história deixa de ser legado e se transforma em âncora. E quando isso acontece, o futuro não é perdido por falta de capacidade – é perdido por excesso de apego.
O avanço do marketing não eliminou a necessidade de relações – apenas tornou sua ausência mais evidente. Em um ambiente onde tecnologia e eficiência se tornaram acessíveis a todos, o verdadeiro diferencial passa a ser aquilo que não se automatiza: a capacidade de construir vínculos reais, sustentados por coerência, presença e significado. O futuro do marketing não será definido por quem melhor utiliza ferramentas, mas por quem melhor compreende – e respeita – as pessoas.