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Reinaldo Martinazzo

A Oficina de Consertar Paradigmas

Na vida profissional, vivi uma transição que muitos conhecem apenas pelos livros: a passagem do mundo analógico para o digital.

Era um tempo em que as rotinas não eram simplesmente ajustadas – eram, constantemente, redesenhadas. Não por capricho. Por necessidade.

Eu trabalhava na área contábil/financeira de um banco em plena expansão. Centenas de agências espalhadas pelo país, gerando diariamente um volume expressivo de documentos que convergiam para centros de processamento e, dali, para uma grande central responsável pelo tratamento das informações.

Foi nesse ambiente que aprendi uma das lições mais valiosas da minha carreira:

a maioria das respostas que uma organização precisa está na contabilidade desde que ela esteja estruturada para transformar dados em informações.

Mas havia algo além dos números acontecendo.

As rotinas mudavam.
Os procedimentos evoluíam.
As exigências cresciam.

E, junto com tudo isso, surgia um desafio silencioso:
o comportamento humano diante da mudança.

Meu gerente, Paulo, era um profissional competente. Experiente, organizado, conhecedor da legislação e dos processos. Tinha contribuído para a construção de estruturas sólidas que sustentavam a operação com precisão.

Mas, como acontece com muitos bons profissionais, havia um detalhe quase imperceptível: Paulo tinha dificuldade em se desapegar daquilo que ele mesmo havia criado.

Ele entendia a necessidade de evoluir.
Mas sentia, de forma quase pessoal, cada mudança que substituía uma rotina construída com tanto cuidado.

E, em nossas longas reuniões, uma frase se repetia com frequência:

“Este é mais um paradigma que está sendo quebrado.”

Até que, em um desses encontros, talvez já tomados por uma certa dose de humor — ou de lucidez — surgiu a ideia:

“Que tal abrir uma oficina logo ali na esquina? Sim; uma oficina para consertar paradigmas.”

Rimos.

Mas, como muitas boas ideias que nascem de uma brincadeira, aquela frase carregava mais verdade do que parecia.

Anos depois, continuo encontrando “oficinas” em pleno funcionamento.

Não em esquinas físicas.
Mas dentro de empresas.
Dentro de equipes.
E, principalmente, dentro de líderes.

E talvez o mais curioso seja perceber que isso acontece exatamente no momento em que o mundo mais fala em tecnologia, automação e inteligência artificial.

Vivemos uma transformação profunda – não apenas tecnológica, mas cultural e organizacional.

Transferimos decisões para sistemas.
Automatizamos processos.
Ganhamos velocidade, escala e eficiência.

Mas há algo que nenhuma máquina faz por nós: o desapego.

Nenhum algoritmo abre mão do que funcionou no passado.
Nenhuma inteligência artificial sente o peso de abandonar uma ideia que ajudou a construir.

Esse é um território exclusivamente humano.

E, paradoxalmente, quanto mais avançamos na tecnologia, mais esse território se torna decisivo.

São profissionais que, ao longo de suas trajetórias, criaram rotinas eficientes, processos sólidos, modelos que funcionaram – e funcionaram muito bem.

E talvez por isso mesmo, se tornaram difíceis de abandonar.

O problema é que paradigmas não foram feitos para serem consertados.

Paradigmas existem para serem substituídos.

E aqui reside uma das armadilhas mais sofisticadas da vida profissional: o sucesso do passado cria resistência ao futuro.

Aquilo que um dia foi solução, com o tempo pode se transformar em limitação.

Aquilo que trouxe eficiência, pode começar a gerar rigidez.

Aquilo que organizou, pode passar a impedir a evolução.

E, quase sempre, isso não acontece por incompetência.

Acontece por apego.

Apego ao que funcionou.
Apego ao reconhecimento conquistado.
Apego à sensação de domínio.

No fundo, talvez este seja um dos grandes desafios da liderança contemporânea.

Não é apenas acompanhar a evolução tecnológica.

Líderes do futuro precisarão, ao mesmo tempo, conduzir pessoas e dialogar com máquinas – sem perder a sensibilidade humana nesse processo.

O verdadeiro desafio está em outro lugar: desenvolver a maturidade emocional necessária para não se tornar refém da própria experiência.

Porque enquanto as máquinas aprendem cada vez mais rápido, muitos profissionais ainda têm dificuldade de fazer o movimento mais simples — e mais difícil: deixar ir.

O mercado não pede licença para mudar.

Ele não consulta históricos.
Não respeita nostalgias.
Não negocia com paradigmas.

Ele simplesmente segue em movimento.

E é nesse movimento que se revela uma competência essencial – e ainda pouco desenvolvida: a capacidade de desaprender.

Desaprender não é negar o passado.
É reconhecer que ele cumpriu o seu papel.

Desaprender não é abrir mão da experiência.
É evitar que ela se transforme em prisão.

Desaprender é, antes de tudo, um ato de maturidade.

Talvez o maior erro de muitos profissionais não seja resistir à mudança.

Seja, na verdade, tentar consertar aquilo que já deveria ter sido substituído.

Manter funcionando o que já perdeu sentido.
Ajustar o que já não responde ao contexto.
Prolongar a vida útil de paradigmas que já cumpriram seu ciclo.

Como se, em algum momento, fosse possível fazê-los voltar a funcionar como antes.

Não é.

Hoje, olhando para trás, entendo que aquela “oficina de consertar paradigmas” nunca fez tanto sentido.

Ela existe. Mas não deveria.

E talvez a pergunta mais importante que um líder possa se fazer não seja:

“O que precisa ser melhorado?”

Mas sim:

“O que eu ainda estou tentando consertar, que já deveria ter sido substituído?”

Se essa reflexão fez sentido para você, talvez seja o momento de olhar com mais atenção para os paradigmas que ainda sustentam suas decisões.

Nem todos eles precisam de ajustes.

Alguns exigem algo mais difícil: coragem para serem deixados para trás.

Reinaldo Martinazzo
Mentor Empresarial e Palestrante

Em um mundo que acelera processos e automatiza decisões, o verdadeiro desafio da liderança continua sendo profundamente humano: saber o que deve evoluir — e, principalmente, o que precisa ser deixado para trás. Porque, no fim, não são os paradigmas que nos limitam… somos nós, quando insistimos em consertar aquilo que já cumpriu o seu papel.
A maior ameaça às decisões estratégicas não é a falta de conhecimento, mas o excesso de certeza. A arrogância cognitiva nasce quando a experiência deixa de ampliar a percepção e passa a filtrar a realidade. Líderes competentes erram não por ignorância, mas por se apoiarem demais no que já sabem — e de menos no que o contexto ainda tenta dizer. Em tempos de ruptura, saber que não sabe deixou de ser fraqueza. Tornou-se inteligência estratégica.
Todo líder corre um risco silencioso: apaixonar-se pelo próprio passado. O que ontem foi mérito, hoje pode ser limite. O que foi experiência, pode virar resistência. Sem uma voz que provoque, que confronte e que amplie a visão, a história deixa de ser legado e se transforma em âncora. E quando isso acontece, o futuro não é perdido por falta de capacidade – é perdido por excesso de apego.
O avanço do marketing não eliminou a necessidade de relações – apenas tornou sua ausência mais evidente. Em um ambiente onde tecnologia e eficiência se tornaram acessíveis a todos, o verdadeiro diferencial passa a ser aquilo que não se automatiza: a capacidade de construir vínculos reais, sustentados por coerência, presença e significado. O futuro do marketing não será definido por quem melhor utiliza ferramentas, mas por quem melhor compreende – e respeita – as pessoas.