Como narrativas internas moldam — e sabotam — escolhas, identidade e destino profissional
NOTA DE CONTEXTO:
Ao longo desta jornada, transitamos pelo tempo como recurso finito, pela indecisão como custo silencioso e pelo ruído como agente de distorção perceptiva; agora, chegamos ao ponto em que não examinamos mais o ambiente, mas aquilo que ele deixou dentro de nós. Esta edição inaugura uma nova fase — menos sobre condições externas e cada vez mais sobre a arquitetura íntima que sustenta (ou limita) nossa identidade, abrindo caminho para reflexões futuras sobre autopercepção, reinvenção e coerência interna com o futuro que desejamos construir.
Ao longo desta série, exploramos o impacto do tempo, da indecisão e do ruído na vida profissional e na liderança contemporânea. Agora, avançamos uma camada ainda mais íntima e reveladora: as histórias internas que contamos e nas quais passamos a acreditar — mesmo quando, no fundo, elas não nos pertencem mais.
Essas histórias não aparecem em relatórios, não entram nos indicadores e raramente são verbalizadas com clareza. No entanto, determinam comportamentos, decisões, resistências, limites e ambições, influenciando silenciosamente o rumo da vida.
Não somos apenas o que fazemos — somos também o que acreditamos ser.
Narrativas internas: o roteiro invisível da identidade
A mente humana precisa de coerência para sobreviver, e por isso cria histórias explicativas: sobre quem somos, o que merecemos, o que conseguimos, onde pertencemos, o que podemos e o que não podemos.
Essas histórias cumprem papéis importantes, como:
- Oferecer segurança;
- Organizar a identidade;
- Justificar escolhas; e
- Proteger contra riscos.
Mas o problema surge quando histórias antigas, emocionais ou herdadas persistem além da fase em que eram úteis — e passam de proteção para limitação.
Exemplos comuns que já ouvi inúmeras vezes:
- “Eu não nasci para liderar.”
- “Meu perfil não é estratégico.”
- “Sou melhor executando do que pensando.”
- “Não mereço estar nesse lugar.”
- “Esse sucesso não é para mim.”
- “Não gosto de mudanças.”
- “Não sou criativo.”
- “Com a minha idade já não faz sentido…”
Essas frases não descrevem realidade — descrevem crenças congeladas.
Narrativas não são fatos: são interpretações
Uma das maiores armadilhas psicológicas do ser humano é confundir história com identidade e interpretação com verdade.
A mente, em busca de estabilidade, cria coerência mesmo quando o enredo é limitante.
E assim, pessoas brilhantes ficam presas em caixas mentais que elas mesmas construíram — ou permitiram que outros construíssem.
O que chamamos de limite real, muitas vezes é apenas limite narrativo.
Histórias herdadas, histórias aprendidas, histórias assumidas
Existem três origens principais das narrativas internas:
- Narrativas herdadas — transmitidas pela família ou cultura (“na nossa família é assim”).
- Narrativas aprendidas — absorvidas a partir de ambientes e experiências (“a empresa me ensinou a ser assim”).
- Narrativas assumidas — adotadas como forma de proteção ou autopreservação (“para não me frustrar, prefiro acreditar nisso”).
Todas são compreensíveis.
Mas nenhuma delas deve ser definitiva.
A coerência pode ser mais perigosa que a incoerência
Muitos adultos se mantêm fiéis a uma narrativa apenas para evitar o desconforto emocional da mudança, porque crescer implica desmentir versões anteriores de si mesmo.
Essa é uma verdade dura e pouco discutida:
a evolução exige coragem para contrariar o próprio passado.
Por isso, há pessoas que preferem permanecer com a narrativa antiga — pois ela dá sentido, mesmo que custe o futuro.
A maior resistência não é mudar de caminho — é mudar de história.
Quando a história protege, quando a história aprisiona
Uma boa narrativa protege.
Uma narrativa ruim paralisa.
Diferença simples:
- Histórias protetoras nos fortalecem e ampliam possibilidades.
- Histórias aprisionantes justificam autossabotagem.
A pergunta-chave é:
A história que você conta sobre si eleva ou limita quem você pode ser?
O papel da Mentoria Empresarial: reescrever, não reinventar
A mentoria não serve para criar uma personagem nova, idealizada, motivacional ou artificial.
Serve para ajudar a organização e a liderança a reconstruir sentido, entender o que deve permanecer, o que já não significa e o que nunca foi verdade.
O mentor não cria uma narrativa – apenas revela a que já está maduro, mas ainda não foi assumido.
Porque amadurecimento não é acumular anos – é revisar histórias, rotinas e processos.
Lembre-se: somos autores, não apenas protagonistas
Cedo ou tarde, todos teremos de encarar uma pergunta fundamental:
Você está vivendo a sua história — ou uma história que aprendeu a repetir?
E aí fica a provocação:
Se pudesse reescrever uma única frase sobre si mesmo, qual seria?
E mais: o que muda na frase, muda no destino?
Na próxima reflexão, vamos analisar de uma forma lúdica e com a utilização de uma metáfora como uma voz estratégica pode ser capaz de ampliar o horizonte quando o passado começa a falar alto demais.