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Reinaldo Martinazzo

O Peso das Histórias que Contamos Sobre Nós Mesmos

Como narrativas internas moldam — e sabotam — escolhas, identidade e destino profissional

NOTA DE CONTEXTO:
Ao longo desta jornada, transitamos pelo tempo como recurso finito, pela indecisão como custo silencioso e pelo ruído como agente de distorção perceptiva; agora, chegamos ao ponto em que não examinamos mais o ambiente, mas aquilo que ele deixou dentro de nós. Esta edição inaugura uma nova fase — menos sobre condições externas e cada vez mais sobre a arquitetura íntima que sustenta (ou limita) nossa identidade, abrindo caminho para reflexões futuras sobre autopercepção, reinvenção e coerência interna com o futuro que desejamos construir.

Ao longo desta série, exploramos o impacto do tempo, da indecisão e do ruído na vida profissional e na liderança contemporânea. Agora, avançamos uma camada ainda mais íntima e reveladora: as histórias internas que contamos e nas quais passamos a acreditar — mesmo quando, no fundo, elas não nos pertencem mais.

Essas histórias não aparecem em relatórios, não entram nos indicadores e raramente são verbalizadas com clareza. No entanto, determinam comportamentos, decisões, resistências, limites e ambições, influenciando silenciosamente o rumo da vida.

Não somos apenas o que fazemos — somos também o que acreditamos ser.

Narrativas internas: o roteiro invisível da identidade

A mente humana precisa de coerência para sobreviver, e por isso cria histórias explicativas: sobre quem somos, o que merecemos, o que conseguimos, onde pertencemos, o que podemos e o que não podemos.

Essas histórias cumprem papéis importantes, como:

  • Oferecer segurança;
  • Organizar a identidade;
  • Justificar escolhas; e
  • Proteger contra riscos.

Mas o problema surge quando histórias antigas, emocionais ou herdadas persistem além da fase em que eram úteis — e passam de proteção para limitação.

Exemplos comuns que já ouvi inúmeras vezes:

  • “Eu não nasci para liderar.”
  • “Meu perfil não é estratégico.”
  • “Sou melhor executando do que pensando.”
  • “Não mereço estar nesse lugar.”
  • “Esse sucesso não é para mim.”
  • “Não gosto de mudanças.”
  • “Não sou criativo.”
  • “Com a minha idade já não faz sentido…”

Essas frases não descrevem realidade — descrevem crenças congeladas.

Narrativas não são fatos: são interpretações

Uma das maiores armadilhas psicológicas do ser humano é confundir história com identidade e interpretação com verdade.

A mente, em busca de estabilidade, cria coerência mesmo quando o enredo é limitante.
E assim, pessoas brilhantes ficam presas em caixas mentais que elas mesmas construíram — ou permitiram que outros construíssem.

O que chamamos de limite real, muitas vezes é apenas limite narrativo.

Histórias herdadas, histórias aprendidas, histórias assumidas

Existem três origens principais das narrativas internas:

  1. Narrativas herdadas — transmitidas pela família ou cultura (“na nossa família é assim”).
  2. Narrativas aprendidas — absorvidas a partir de ambientes e experiências (“a empresa me ensinou a ser assim”).
  3. Narrativas assumidas — adotadas como forma de proteção ou autopreservação (“para não me frustrar, prefiro acreditar nisso”).

Todas são compreensíveis.
Mas nenhuma delas deve ser definitiva.

A coerência pode ser mais perigosa que a incoerência

Muitos adultos se mantêm fiéis a uma narrativa apenas para evitar o desconforto emocional da mudança, porque crescer implica desmentir versões anteriores de si mesmo.

Essa é uma verdade dura e pouco discutida:
a evolução exige coragem para contrariar o próprio passado.

Por isso, há pessoas que preferem permanecer com a narrativa antiga — pois ela dá sentido, mesmo que custe o futuro.

A maior resistência não é mudar de caminho — é mudar de história.

Quando a história protege, quando a história aprisiona

Uma boa narrativa protege.
Uma narrativa ruim paralisa.

Diferença simples:

  • Histórias protetoras nos fortalecem e ampliam possibilidades.
  • Histórias aprisionantes justificam autossabotagem.

A pergunta-chave é:

A história que você conta sobre si eleva ou limita quem você pode ser?

O papel da Mentoria Empresarial: reescrever, não reinventar

A mentoria não serve para criar uma personagem nova, idealizada, motivacional ou artificial.
Serve para ajudar a organização e a liderança a reconstruir sentido, entender o que deve permanecer, o que já não significa e o que nunca foi verdade.

O mentor não cria uma narrativa – apenas revela a que já está maduro, mas ainda não foi assumido.

Porque amadurecimento não é acumular anos – é revisar histórias, rotinas e processos.

Lembre-se: somos autores, não apenas protagonistas

Cedo ou tarde, todos teremos de encarar uma pergunta fundamental:

Você está vivendo a sua história — ou uma história que aprendeu a repetir?

E aí fica a provocação:
Se pudesse reescrever uma única frase sobre si mesmo, qual seria?

E mais: o que muda na frase, muda no destino?

Na próxima reflexão, vamos analisar de uma forma lúdica e com a utilização de uma metáfora como uma voz estratégica pode ser capaz de ampliar o horizonte quando o passado começa a falar alto demais.

Muitas vezes não é o mundo que nos limita, mas a história silenciosa que carregamos por anos sem perceber. Se a narrativa que você abraçou já não corresponde ao profissional ou à pessoa que se tornou, talvez o problema não esteja no cenário, mas no roteiro — e este texto pode funcionar como o primeiro espelho.
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