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Reinaldo Martinazzo

DE SUN TZU A ALAN KAY: POR QUE O PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PRECISA SER ÁGIL — OU NÃO SERÁ

O mundo muda.
O plano engessado morre.
O pensamento vivo sobrevive.

NOTA DE CONTEXTO
Ao longo do ano, tratei de temas distintos — pressa, liderança reativa, ROI emocional, inteligência situacional, ‘ghosting’ corporativo. Mas, relendo os textos em conjunto, um padrão se impôs de forma quase desconfortável: o problema raramente está na execução. Ele começa antes — no modo como planejamos.
Ainda vejo organizações tratando o Planejamento Estratégico como um ritual de segurança psicológica: longo, burocrático, previsível.
Não porque isso funcione.
Mas porque isso tranquiliza.
Este texto não é sobre ferramentas.
É sobre mentalidade.
Entendo também ser este mais um papel de um Mentor Empresarial: debater a respeito do preço que se paga quando se planeja para não mudar.

O PLANO FICOU LENTO. O MUNDO NÃO.

Há organizações que ainda planejam como se o futuro fosse uma linha reta.
E há gestores que confundem previsibilidade com controle.

Planejar, para muitos, virou sinônimo de prever.
Mas o mundo não se comporta mais assim.

Planejar não é prever.
Planejar é se preparar para mudar — inclusive de ideia.

Quando o ambiente se torna instável, o plano rígido deixa de ser proteção.
Ele passa a ser o inimigo interno.

QUANDO O PLANEJAMENTO ERA GUERRA

Muito antes de ser uma disciplina  e uma das principais funções da administração, o planejamento era uma questão de sobrevivência.
Sun Tzu já compreendia que estratégia não era força bruta, mas leitura de contexto.

“A melhor vitória é vencida antes da batalha.”

Mas há um detalhe frequentemente esquecido pelos gestores modernos:
o plano só valia enquanto o terreno permanecia reconhecível.

Aníbal Barca, ao atravessar os Alpes com seu exército, levando consigo milhares de soldados e elefantes de guerra, não venceu por ter um plano perfeito. Venceu porque criou as condições para adaptá-lo em movimento.

No mundo corporativo estável, o planejamento anual fazia sentido.
Quando o mundo ficou instável, o ritual permaneceu — mesmo sem utilidade.

O DIA EM QUE MINTZBERG MUDOU DE IDEIA

Em Safari da Estratégia, Henry Mintzberg reconheceu o planejamento formal como uma escola legítima do pensamento estratégico.
Pouco depois, em Ascensão e Queda do Planejamento Estratégico, ele fez algo raro entre pensadores: voltou atrás.

Não porque rejeitasse a estratégia.
Mas porque percebeu que o planejamento havia se tornado aquilo que jamais deveria ser:

  • um ritual burocrático
  • um documento congelado
  • uma tentativa de controlar o incerto com planilhas

Mintzberg foi claro — e ainda hoje incômodo:

“O planejamento tenta prever o que só pode ser descoberto no caminho.”

Se essa crítica foi feita antes da era digital, a pergunta inevitável é:

por que tantos gestores ainda fingem que ela não existe?

ALAN KAY E O NASCIMENTO DO PLANEJAMENTO VIVO

Enquanto a administração ainda discutia estruturas, organogramas e planos de longo prazo, Alan Kay deslocava o eixo da reflexão para algo mais profundo.

Alan Kay, mais conhecido por sua contribuição à computação, talvez tenha sido um dos pensadores que melhor compreendeu, antes da maioria dos gestores, que sistemas relevantes não são os que preveem o futuro, mas os que aprendem com ele.

“A melhor forma de prever o futuro é inventá-lo.”

Kay não falava de futurologia.
Falava de arquiteturas — mentais, organizacionais e sistêmicas — capazes de evoluir em ambientes instáveis.

Aqui ocorre a verdadeira ruptura:

  • o plano deixa de ser fim
  • e passa a ser plataforma

Planejar deixa de ser um exercício de controle
e passa a ser um exercício de capacidade adaptativa.

O ERRO CENTRAL: CONFUNDIR PLANEJAMENTO COM PREVISÃO

O problema não é planejar.
O problema é planejar como se o ambiente fosse imóvel.

Planos rígidos funcionam em mercados rígidos.
Mercados líquidos exigem pensamento líquido.

O mundo não pede planos mais detalhados.
Pede planos mais responsivos.

E aqui surge a questão que raramente é dita em voz alta:

quando o planejamento é rígido demais,
o problema não é o método —
é a dificuldade do gestor em lidar com incerteza.

O plano vira armadura emocional.

PLANEJAMENTO TRADICIONAL × PLANEJAMENTO ÁGIL

O que mudou não foi apenas a ferramenta.
Mudou a lógica.

Planejamento TradicionalPlanejamento Ágil
Documento fixoProcesso vivo
Top-downConstruído com quem executa
Baseado em previsãoBaseado em adaptação
Mudança é ameaçaMudança é insumo
Ciclos anuaisCiclos curtos revisáveis
Ênfase no planoÊnfase no aprendizado
Execução depoisExecução durante
Avaliação tardiaFeedback contínuo

Antes, o plano morria no documento.
Agora, ele nasce no diálogo.

QUANDO O PLANO PRECISA SER VISTO PARA SER VIVIDO

É por isso que ferramentas visuais ganham relevância.
Não por estética — mas por cognição.

A facilitação gráfica, por exemplo, não acelera decisões.
Ela expõe incoerências.

Quando o plano pode ser visto, questionado e redesenhado diante das pessoas, ele deixa de ser comunicado.
Ele passa a ser assumido.

Planejamento ágil não é planejar mais rápido.
É planejar com correção no próprio movimento.

O ERRO NÃO ESTÁ EM PLANEJAR

ESTÁ EM CONGELAR O PLANO

Ferramentas como OODA Loop, OKRs, Canvas, SWOT dinâmica, Design Thinking ou Kanban estratégico não resolvem nada sozinhas.

Elas apenas revelam algo incômodo:

quem não sabe interpretar o ambiente usa o plano para fingir controle.

E isso não é problema técnico.
É problema de liderança.

Reflexões de um Mentor não é uma coleção de certezas.
É um espaço de desconforto produtivo.

Aqui não discutimos ferramentas isoladas, mas os dilemas reais que atravessam as organizações — aqueles que raramente aparecem nos relatórios, mas definem decisões, culturas e resultados.

Planejamento rígido não é falha de método.
É sintoma de liderança que ainda tenta controlar o que precisa ser interpretado.

Na próxima edição, avançaremos para outro desses dilemas inevitáveis: a Liderança Adaptativa — e por que, no mundo atual, liderar não é controlar, mas ler o ambiente e agir com consciência.

Muitas vezes não é o mundo que nos limita, mas a história silenciosa que carregamos por anos sem perceber. Se a narrativa que você abraçou já não corresponde ao profissional ou à pessoa que se tornou, talvez o problema não esteja no cenário, mas no roteiro — e este texto pode funcionar como o primeiro espelho.
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