Nota de Contexto
Desde a primeira edição deste newsletter, venho percorrendo um caminho deliberado: revelar, ponto a ponto, por que a Mentoria Empresarial não é um luxo para tempos de calmaria, mas uma necessidade estrutural para quem lidera em ambientes incertos, acelerados e emocionalmente complexos.
Se, à primeira vista, este artigo parece destoar do percurso, basta olhar mais de perto para perceber o contrário: o Tikker é a metáfora perfeita para amarrar tudo o que discutimos até aqui. Porque, no fundo, todos os temas anteriores — urgência, decisão, adaptação, planejamento ágil, leitura de contexto e mentoria — orbitam ao redor de um único elemento estrutural: o tempo.
Tempo que se acelera.
Tempo que falta.
Tempo que desperdiçamos.
Tempo que não voltará.
Tempo que poderia ser vivido com mais consciência, propósito e valor.
Em 2013, durante uma aula em um programa de MBA em Marketing, decidi provocar os alunos com um exercício simples. Apresentei uma matéria da Revista Exame que relatava o lançamento do Tikker, um relógio de pulso criado pelo designer sueco Frederik Colting.
À primeira vista, parecia apenas mais um gadget entre tantos. Mas havia um detalhe perturbador: o Tikker não mostrava apenas as horas. Ele fazia a contagem regressiva para a morte do seu dono.
Sim, você leu corretamente. Era um relógio que informava — em anos, meses, dias, horas, minutos e segundos — o tempo estimado que restava ao usuário. Para configurá-lo, bastava preencher um questionário. A partir daí, o relógio assumia o papel de uma pequena sentença digital, vibrando silenciosamente no pulso.
Projetei a imagem do produto na tela e lancei a pergunta:
“Quem aqui compraria e usaria?”
O que se seguiu foi um silêncio constrangido.
Alguns riram, outros desviaram o olhar.
Ninguém levantou a mão.
A reação dizia muito mais sobre nós do que sobre o produto.
A Inovação que Assusta — Quando Criatividade e Propósito Caminham em Trilhas Opostas
Colting defendia que o Tikker não era um dispositivo mórbido, mas um instrumento de conscientização:
“O que importa não é quanto tempo você tem, mas o que fará com ele.”
A proposta não era completamente absurda. Afinal, desde estoicos a monges budistas, a humanidade reconhece que lembrar da finitude pode nos libertar para viver melhor.
Mas inovação não se mede apenas pela intenção.
Inovação se mede pelo encaixe entre dor real, propósito claro e aceitação cultural.
O Tikker falhou porque tocou a nota certa… no tom errado.
Ao tentar inspirar, assustou.
Ao querer libertar, oprimiu.
Ao propor consciência, ativou medo.
Não havia valor percebido suficiente para sustentar a provocação.
Afinal, a maioria das pessoas já luta diariamente para lidar com urgências, responsabilidades e pressões. Carregar no pulso um lembrete incessante da própria morte não parecia exatamente uma promessa de bem-estar.
O fracasso do Tikker como caso de marketing — e o sucesso como metáfora
O Tikker não prosperou comercialmente.
Mas ele se tornou, paradoxalmente, um dos melhores estudos de caso sobre inovação desalinhada ao propósito do público.
Ele falha como produto.
Mas é brilhante como metáfora.
Por quê?
Porque ele nos convida a olhar, de forma brutal e inegociável, para a questão estratégica mais negligenciada por empresas, líderes e profissionais:
O tempo não é um recurso. É o próprio campo de jogo. E ninguém controla o placar.
No mundo corporativo, fala-se muito de metas, growth, expansão, performance.
Mas se fala pouco do que antecede com tudo isso: a consciência do tempo.
Sem consciência, não há prioridade.
Sem prioridade, não há estratégia.
Sem estratégia, não há resultado.
E sem resultado, empresas — e carreiras — naufragam.
O Tikker escancara essa verdade incômoda.
O que empresas e profissionais podem aprender com um relógio que contava a morte
Quando apresento o caso do Tikker sob a ótica da Mentoria Empresarial, três grandes reflexões emergem:
1. Inovar não é experimentar com o público — é entender o público
A inovação não falha quando falta tecnologia, mas quando falta sentido.
Muitas empresas criam produtos porque:
“o mercado está fazendo”,
“a concorrência lançou”,
“a tecnologia permite”.
Mas esquecem de perguntar:
para quem isso importa? Por quê?
2. Tempo sem direção vira ansiedade; direção sem tempo vira fantasia
Profissionais queimam energia em urgências que não movem nada.
Empresas produzem relatórios que ninguém lê.
Líderes respondem mensagens como se tudo fosse vida ou morte.
Mas o relógio interno — o tempo que realmente importa — permanece desgovernado.
3. Não é medo da morte. É medo de descobrir que não estamos vivendo direito
O Tikker não assusta porque mostra o fim.
Ele assusta porque revela o quanto muitas escolhas são automáticas, reativas, herdadas ou equivocadas.
Quem vive no piloto automático teme qualquer instrumento que o obrigue a olhar para a própria vida com seriedade.
A grande descoberta: o Tikker não fala sobre morte, mas sobre propósito
E aqui começa a convergência com a Mentoria Empresarial, que não é sobre técnica, ferramentas ou modelos — mas sobre clareza, consciência, prioridade e sentido.
Líderes e profissionais não precisam de um relógio que conte a própria morte.
Eles precisam de uma pergunta que o Tikker, involuntariamente, resgata:
Se o seu tempo fosse realmente percebido como finito, você viveria — e trabalharia — da mesma forma?
Essa pergunta, quando feita com coragem, reorganiza prioridades, redesenha carreiras, desamarra culpas e desperta a lucidez estratégica que o mundo hiper acelerado insiste em colocar para dormir.
O Tikker falhou porque quis ser um relógio.
Mas triunfa como espelho.
E se tivéssemos um Tikker invisível?
A verdade é simples e irrefutável:
Todos nós já temos um.
Não em forma de gadget, mas em forma de consciência.
E ela está sempre fazendo uma pergunta silenciosa, porém decisiva:
O que você está fazendo com o tempo da sua vida?
Ao contrário do Tikker físico, este não precisa ser configurado.
Ele não exibe números.
Mas ele cobra — a cada escolha, a cada adiamento, a cada prioridade mal colocada, a cada ano desperdiçado em projetos que já não fazem sentido.
O Tikker como lente estratégica
Ao retomar esse conceito tantos anos depois, percebo o quanto ele se conecta ao meu papel como Mentor Empresarial:
- Auxiliar líderes a reduzir o desperdício de tempo estratégico;
- Organizar prioridades que se perderam no ruído;
- Dar clareza para decisões que já não podem ser adiadas;
- Provocar sem ferir, mas sem poupar verdades; e
- Transformar o tempo em aliado, e não em ameaça.
Porque, no fim, estratégia é isso:
a arte de escolher o que merece o teu tempo — e o que não merece mais.
O verdadeiro propósito do Tikker – e do nosso próprio tempo
Frederik Colting dizia que seu relógio era um convite para viver melhor.
Ele acertou no propósito, mas errou no veículo.
Entretanto, sua provocação permanece viva:
Não é o tempo que falta. É a vida que sobra adiada.
Não precisamos de um relógio que conte regressivamente a nossa existência.
Precisamos de coragem para assumir o que o tempo já está dizendo silenciosamente.
Este artigo encerra um ciclo, trazendo para o centro aquilo que, paradoxalmente, todo líder sabe, mas poucos encaram:
estratégia é escolha — e escolha é, sempre, um ato de priorização temporal.
Na próxima edição abrimos uma nova camada de profundidade na reflexão:
não basta saber o que fazer. É preciso saber o que merece o teu tempo, pois é nesse ponto que a mentoria encontra sua força máxima.
Então, enquanto você aguarda a próxima edição da nossa Newsletter, pense nisso:
se o seu Tikker interno começasse a contagem hoje, quais seriam as três primeiras coisas que você mudaria imediatamente no seu trabalho, na sua liderança ou na sua vida?
A resposta a essa pergunta não só revela a verdade — ela redesenha o futuro.